Mianmar: repressão é ineficaz na era da informação
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Publicado por Óscar Gomes   
MongesMyanmarCostumava ser mais fácil: fechar as fronteiras, estabelecer bloqueios nas estradas, deter os trens, cortar as linhas telefônicas, e depois era possível reprimir o povo com impunidade. Foi isso que os militares da Birmânia fizeram ao esmagar um levante democrático em 1988. Na semana passada, quando os generais começaram a atacar monges budistas e seus simpatizantes nas ruas do país, descobriram que o mundo havia mudado, e que dessa vez havia gente assistindo.

A junta militar tem agora de enfrentar uma revolução na tecnologia da resistência, por meio da qual um exército de guerrilha formado por cidadãos repórteres está transmitindo vídeos, fotografias e informações via Internet no momento mesmo em que os acontecimentos se desencadeiam.

As imagens encontraram lugar nas telas de televisão e nos jornais de todo o mundo, que nos últimos dias se viram inundados por cenas de ruas ocupadas por monges vestidos de vermelho e imagens do caos e da violência que surgiram quando os militares reprimiram o maior levante popular das duas últimas décadas. A velha tecnologia das armas e dos cassetetes havia sido enredada pelas possibilidades de comunicação eletrônica imediata, de uma maneira que o mundo jamais viu.

"Para aqueles de nós que estudam a história da tecnologia de comunicação, o fenômeno atual tem importância semelhante à do telégrafo, o primeiro meio que separou a comunicação dos transportes", disse Frank Moretti, diretor executivo do Centro de Ensino e Aprendizado de Novas Mídias da Universidade Colúmbia, em Nova York. E isso é apenas o começo de uma revolução, de acordo com Mitchell Stephens, professor de jornalismo na Universidade de Nova York e autor de The History of News.

"Há cada vez menos eventos dos quais não tenhamos imagens. O mundo agora está repleto de Zapruders", disse Stephens, em referência a Abraham Zapruder, um espectador que foi a única pessoa a registrar imagens em filme do assassinato do presidente John Kennedy, em 1963.

Em 22 de setembro, quando os monges se reuniram diante da casa da líder oposicionista Aung San Suu Kyi, que não havia sido vista em público nos últimos quatro anos, um deles registrou uma foto dela com a câmera de um celular, erguido por sobre as cabeças calvas dos homens que estavam à sua frente. Na semana passada, quando um soldado matou a tiros o cinegrafista japonês Kenji Nagai, que cobria as manifestações, alguém posicionado no alto de um edifício registrou imagens do ataque.

Comunicação x repressão
Depois, em um dos países mais pesadamente censurados do mundo, as pessoas descobriram maneiras de divulgar essas imagens e relatos. Enviaram mensagens de texto em seus celulares, e-mails e publicaram blogs, de acordo com alguns dos grupos de dissidentes exilados que receberam mensagens. Postaram informações no site de redes sociais Facebook. Enviaram mensagens minúsculas em cartões eletrônicos. Atualizaram a enciclopédia online Wikipédia.

Também usaram versões virtuais dos pombos-correio usados no passado para a transmissão de mensagens e reportagens, transferindo material a embaixadas e organizações não governamentais dotadas de acesso via satélite à Internet.

E, igualmente importante, as imagens e informações foram transmitidas de volta à Birmânia - renomeada Mianmar pela junta militar - por estações estrangeiras de TV e rádio, o que permitiu que um público que só recebe informações e notícias de seu governo se mantivesse informado e conectado. Então, na sexta-feira, o fluxo de imagens subitamente parou.

"Está havendo um blecaute de informações na Birmânia", escreveu Dathana, autor de um blog que era fonte de informações sobre o país para o mundo exterior. Essa foi sua última comunicação. Usando a tecnologia de maneira tão brutal quanto usa seus cassetetes, a junta militar simplesmente fechou os dois provedores de acesso à Internet do país. Para acompanhar o isolamento físico do mundo externo que os governantes do país vêm impondo há 50 anos, eles agora cortaram o aceso dos birmaneses ao mundo virtual.

A maioria das comunicações com o exterior via telefonia fixa ou móvel foi cortada, e os soldados saíram às ruas confiscando câmeras e celulares equipados com câmeras. "Eles por fim compreenderam o que era a maior ameaça", disse Aung Zaw, editor da revista Irrawaddy publicada no exílio, cujo site vinha sendo uma grande fonte de informações sobre a Birmânia nas últimas semanas. O site da publicação foi atacado por um vírus em um momento que indica a possibilidade de que o governo militar conte com alguns hackers habilidosos em suas fileiras.

Silência da web é arma poderosa
Ao mesmo tempo, a junta adotou a mais antiga de todas as táticas para bloquear informações ¿ o medo. Os jornalistas locais e pessoas apanhadas transmitindo informações ou usando câmeras estão sendo detidas e aprisionadas, segundo as organizações de exilados. Em um último e apressado telefonema, diz Aung Zaw, uma de suas principais fontes no país se despediu. "¿Nós fizemos o máximo possível", disse a fonte. "Não podemos mais nos movimentar; agora a tarefa é de vocês, não há nada mais que possamos fazer. Estamos acabados. Os soldados estão atrás de nós. Estamos acabados".

E ainda assim, na batalha pela alma do país e pelo apoio do mundo, essas vitórias da junta militar vão terminar em derrota, disse Xiao Qiang, diretor do China Internet Project e professor adjunto da Escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Ao bloquear a Internet, eles provam estar errados, ter algo a esconder. Quanto a isso, mesmo um blog fechado é um blog forte. O silêncio da Internet é uma mensagem poderosa".

 

Terra.com.br 

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